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ALS em Portugal: um desafio ainda à espera de resposta

Bruno Sousa, SPFCS

Certamente que todos nos recordamos de uma iniciativa que viralizou há uns anos por todo o mundo conhecida como Ice Bucket Challenge. O que muitos poderão ter esquecido é o verdadeiro objetivo desta campanha global de angariação de fundos – trazer uma visibilidade inédita e acelerar a descoberta de uma cura para a esclerose lateral amiotrófica (ALS).

A esclerose lateral amiotrófica (ALS) é uma doença neurodegenerativa que afeta principalmente os neurónios motores, conduzindo a uma perda gradual do controlo voluntário dos músculos. Por ser uma doença rara e com uma progressão extremamente rápida – uma vez expressos os sintomas, os doentes têm uma esperança de vida média de 2-5 anos – poderíamos pensar que não há muito a fazer. Contudo, há um conjunto de dados que nos devem fazer refletir. A ALS afeta aproximadamente 5 em cada 100 000 habitantes na Europa e só em Portugal, deverão existir atualmente mais de 1000 doentes. Com o envelhecimento populacional, espera-se que a sua incidência aumente 70% até 2040.

Além disso, a ALS é uma doença heterogénea. Apesar de já terem sido identificados vários genes que estão implicados na fisiopatologia da ALS, apenas 5-10% dos doentes têm uma origem genética e apresentam o que designamos por ALS familiar. Assim, há 90-95% de doentes cuja doença não tem uma causa genética, mas sim múltiplas causas ambientais e indeterminadas – o que se designa por ALS esporádica. De facto, compreender o exposoma – o conjunto completo de exposições ambientais que um indivíduo enfrenta ao longo da sua vida – é crucial para conhecer a ALS uma vez que esta poderá resultar de uma complexa interação entre uma predisposição genética e fatores ambientais que estão integrados no exposoma.

Figura 1. Atualmente, há vários estudos que visam caracterizar com detalhe o exposoma na ALS e identificar os fatores ambientais que aumentam o risco e a progressão da doença (Goutman et al. 2023. Nature Reviews Neurology. p. 619)*

Porque é tão importante discutir a ALS em Portugal?

Portugal e os farmacêuticos portugueses terão de lidar, num futuro próximo, com uma patologia com elevado grau de complexidade, onde podem ter uma contribuição assinalável.

Por um lado, no diagnóstico da ALS, o qual constitui um dos maiores desafios: o tempo que decorre entre o início dos sintomas e a confirmação do diagnóstico é superior a 1 ano, o que é altamente significativo para uma doença com uma progressão rápida e agressiva como a ALS. Na área da Genética Humana, os farmacêuticos podem ter um papel decisivo para compreendermos como os diferentes fatores ambientais interagem com o genoma e influenciam o risco e a progressão da doença, e, assim, identificarmos novos biomarcadores. Para isso acontecer, é imperativo que os farmacêuticos tenham acesso às amostras biológicas de doentes com ALS disponíveis nos biobancos nacionais e internacionais, se integrem nas equipas de investigação e cooperem em rede.

Por sua vez, não há cura para a ALS e as estratégias terapêuticas disponíveis são limitadas e com capacidade restrita para atrasar a progressão da doença. A esperança pode estar nos esforços substanciais que têm sido desenvolvidos nos últimos anos para ter novas terapêuticas para a ALS. É verdade que temos testemunhado um aumento do número de ensaios clínicos na ALS e, em particular, os oligonucleotídeos antisense como o tofersen representam um novo hype nas terapêuticas para a ALS.

Porém, perante este cenário, há ainda uma percentagem significativa de doentes que não têm nem terão acesso a uma terapêutica eficaz. Também aqui os farmacêuticos podem ser agentes de mudança. O ecossistema de investigação clínica em Portugal tem um potencial muito maior de crescimento, em especial no contexto de doenças raras como a ALS. Assim, a capacidade de atrair para Portugal ensaios clínicos multicêntricos na área da ALS e a integração das associações de doentes no impulso para um maior investimento na investigação pré-clínica e clínica na ALS (à semelhança do que já aconteceu em França, por exemplo, para doenças neuromusculares como a SMA) são urgentes.

E, mais uma vez, se aplica a regra de ouro: onde há um medicamento, tem de estar um farmacêutico.

(*) Goutman SA, Savelieff MG, Jang DG, Hur J, Feldman EL. The amyotrophic lateral sclerosis exposome: recent advances and future directions. Nature Reviews Neurology. 2023 Oct 1;19(10):617–634. 

NOTA: Texto publicado, originalmente, na NetFarma, disponível AQUI.